
|
| CD E DVD MOÇAMBIQUE
E CATOPÉ DA COMUNIDADE DE FAGUNDES MG. |
PROJETO PATROCINADO PELA PETROBRAS REGISTRA TRABALHO
DE UM MESTRE DA CULTURA POPULAR MINEIRA
CD e DVD perpetuam cantos e danças de festas religiosas do interior
de Minas, comandadas pelo Capitão Júlio Antônio Filho
Capitão de moçambique, capitão-mor do Reinado de
Nossa Senhora do Rosário de Fagundes/Minas Gerais, embaixador de
folia de reis, guia espiritual e mestre da cultura popular. Estes são
os títulos do capitão Júlio Antônio Filho ou
capitão Julinho, como é carinhosamente chamado, um homem
que preserva o conhecimento da língua da costa, hoje restrita a
poucos falantes, em sua maioria idosos. Capitão Julinho tem despertado
a atenção por onde passa, devido à qualidade e singularidade
de seu moçambique. No entanto, todo este trabalho permanece desconhecido
da maior parte da população brasileira. Agora, depois de
uma longa trajetória carregando a bandeira e a antiga tradição
do Reinado do Rosário, o capitão Júlio Antônio
Filho vai poder se tornar ainda mais popular. Um projeto do Clube do Violeiro
Caipira de Brasília, sob o patrocínio da Petrobras, registrou
os cantos e danças deste mestre da cultura popular em CD e DVD.
O projeto, que conta com incentivo e apoio da Fundação Cultural
Palmares, do Centro de Memória Digital da UnB e da Universidade
Federal de Goiás, envolve o registro visual e de áudio dos
ternos de Reinado de moçambique, vilão e catopé e
dois ternos de folia de reis, compostos em sua grande maioria por afro-descendentes
da comunidade. Com produção do Clube do Violeiro caipira
de Brasília, uma equipe composta pelo pesquisador e professor Sebastião
Rios, pelo violeiro e pesquisador Roberto Corrêa, pela produtora
Juliana Saenger e pelo cineasta Wesley Zaremaré se encarregou da
gravação e da filmagem durante a Festa do Congado de Fagundes
de 2007. Roberto fez a captação de áudio do CD e
sua direção musical e participou ainda da captação
de áudio do DVD. Zaremaré dirigiu as filmagens do DVD, que
tem roteiro assinado por Carolina Santos, Sebastião Rios, Talita
Viana e Zaremaré. A equipe registrou as diversas funções
da festa, registrando seus cantos e danças.
Todo o material colhido passou por uma seleção e edição
até chegar a compor o CD Foi o que que me trouxe: moçambique
do capitão Júlio Antônio Filho(com 72 min) e o DVD
Cê me dá licença: capitão Julinho e o congado
de Fagundes MG (que contém, além do média-metragem
de 52 min sobre o Congado, um extra com a Folia de Reis e uma galeria
de fotos). Estes produtos são voltados para divulgação
educativa e comercial, com tiragem de duas mil cópias de cada produto.
O material registrado será copiado para os pesquisadores do projeto,
para os grupos e para o Centro de Memória Digital da UnB.
O CD é centrado nos cantos do moçambique no Reinado do Rosário
de Fagundes, enquanto o DVD tem o foco mais amplo, abrangendo também
as funções religiosas conduzidas pela música e pela
dança na festa e o trabalho de guia espiritual, embaixador de folia
de reis e capitão de moçambique do personagem central, o
capitão Julinho, em sua comunidade. Ambos enfatizam a importância
da memória ancestral na festa. O CD e o DVD divulgam elementos
importantes da cultura popular para o grande público, dando oportunidade
para que muitos tenham contato com esta tradição pouco difundida.
O registro audiovisual desta festa significa ainda um grande estímulo
para o trabalho dos reinadeiros e propicia geração e transferência
de renda - uma vez que os grupos ficaram com 800 CDs e 800 DVDs e poderão
fazer novas prensagens se assim o desejarem, adquirindo das produtoras
a preço de custo.
A FESTA
A festa dos santos de devoção negra é feita pelos
reinadeiros ou congadeiros, que são os integrantes dos ternos:
capitães, músicos, dançadores ou soldados, meirinho
e bandeireiro. Os ternos - moçambique, catopé e vilão
vencem longos percursos a pé, cumprindo suas obrigações
de devotos, cantando, tocando e dançando nas ruas e nas casas para
os santos e suas cortes. Na festa, os principais santos homenageados são
Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santo Antônio
de Lisboa e Santa Efigênia. Cada um deles tem sua corte, composta
por rei e rainha de promessa e por rei e rainha congos. Durante a festa,
as bandeiras no alto do mastro, simbolizando a ligação do
céu e da terra, marcam um período especial em que os santos
derramam sua benção e o sagrado se faz presente.
Fagundes é um povoado no município de Santo Antonio do Amparo
- MG, próximo da rodovia Fernão Dias, a 190 km da capital
mineira. Para chegar à cidade é preciso enfrentar 10 km
de estrada de terra, saindo à direita no sentido BH - São
Paulo (ver mapa na contracapa do DVD).
Participam da festa os ternos do povoado: Terno de Moçambique do
Capitão Júlio Antônio Filho, Terno de Vilão
do Capitão Ismael Balbino, Terno de Catopé do Capitão
Antônio Ana. Além disso, no domingo, comparecem aproximadamente
10 ternos de cidades vizinhas que ajudam a fazer a festa.
UM POUCO DE HISTÓRIA
“Criado no congo”, o capitão Julinho é herdeiro
da antiga tradição do Reinado do Rosário. A língua
da costa foi o idioma disseminado nas senzalas da região e hoje
está restrito a poucos falantes. Com base gramatical do português
e vocabulário predominantemente banto, era a língua que
mais comumente capitão Julinho ouvia na infância, na qual
aprendeu os cantos do Rosário, acompanhando o avô, o pai
e os tios.
A iniciação como capitão teve a duração
de oito anos, até que tivesse autorização para conduzir
o moçambique, aos vinte e cinco anos de idade. Hoje, quarenta anos
depois, ele se encontra em um momento privilegiado, com uma longa trajetória
no Reinado e ainda com força e saúde para encarar os extensos
percursos que os moçambiqueiros cumprem em sua devoção.
O moçambique do capitão Júlio Antônio Filho
se destaca por sua fidelidade às tradições mais antigas
do Rosário, à origem da festa. Se, no geral, as festas do
Reinado de Nossa Senhora do Rosário preservaram uma tradição
muito rica, mantendo cantos, danças, ritmos e melodias antigos,
o mesmo não se pode dizer do conhecimento de seu sentido da parte
de muitos capitães. Vários são sinceros devotos de
Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, excelentes músicos,
cantores e repentistas, mas perderam, ou nunca tiveram, as concepções
religiosas e as práticas culturais próprias dos descendentes
de africanos na América, que, historicamente, definiram a forma
da festa de Nossa Senhora do Rosário e outros santos de devoção
negra, com suas ingomas (tambores) justapostas ao rosário, com
suas divindades cultuadas à sombra dos santos católicos
e preservando seus processos de iniciação.
A incorporação de elementos europeus de devoção
- os santos católicos - está na origem da festa de Nossa
Senhora do Rosário no Brasil, particularmente em Minas Gerais.
Permanece a explicação dos acontecimentos deste mundo com
referência ao sobrenatural, a atribuição de grande
importância à interferência dos ancestrais no presente
e a responsabilidade de feiticeiros e sacerdotes de promover a comunicação
entre os dois mundos, conjurando os bons espíritos e esconjurando
os maus, para promover a felicidade na terra. Este é o papel do
capitão de moçambique, herdeiro inclusive do bastão
que simboliza o poder do feiticeiro africano, numa festa marcada pela
convivência do mágico com o religioso instituído.
Informações
Sebastião Rios (62) 3536 5243
Clube do Violeiro Caipira (61) 3301 1267 – 3301 5888
|